quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Um novo amigo e a louraça

Minha dona é uma grande companheira. Depois do expediente, sempre saímos para dar uma corrida. Este é o nosso momento de relaxar ao fim de mais um dia estressante e acaba servindo também, de tabela, para eu gastar um pouco da minha energia. Sem essa válvula de escape, definitivamente, não consigo ficar sossegado!
Sou um cão hiper-ativo. Como já contei em outros posts, tenho fogo no rabo, sou boêmio e não resisto sair para meus passeios noturnos.
Sempre que ela começa a se preparar para ir embora, desligar o notebook, arrumar a bolsa e finalmente apagar as luzes do escritório, já me animo todo. Sei que esta é a hora da nossa voltinha. O percurso é bem variado. Minha dona é como eu: não gosta de repetição e adora um atalho. Tudo depende do astral e da disposição dela. Quem vê aquela baixinha não imagina como ela corre. Confesso, que ás vezes ela me quebra!
Acabei ficando meio vidrado nesse lance de corrida. Nos dias em que ela não vai, fico a noite toda entediado ou acabo dando uma das minhas fugidas para a night. Mas teve uma vez, que eu estava tão a fim de sair correndo, que não resisti. Assim que ela virou as costas, pulei o portão e sai em disparada como se fosse a minha ultima vez!
Sai na inércia seguindo por um dos trajetos que eu já havia feito com a Luiza. Quando estava subindo a Avenida das Agulhas Negras, lugar que a gente sempre passa, encontrei um camarada que estava em um ritmo bem legal. Não deu outra! Resolvi acompanhar.
A princípio ele tentou ir mais rápido, mas mostrei que sou bom na corrida. Eu dava aquela disparada, tipo pra esnobar, e esperava-o lá na frente. E assim, ficamos por volta de uma hora, até que ele parou em frente a uma casa, tocou o interfone e entrou. Não entendi muito bem, mas como eu estava cansado, resolvi relaxar e me estiquei na calçada. Passado algum tempo, o rapaz reapareceu com um telefone nas mãos, leu a placa que tenho na minha coleira fez uma ligação.
Já pensei logo: Estrepei-me! Ele vai falar cobras e lagartos para a minha dona! Nessas horas, mesmo sem ter feito nada de errado, eu sempre penso no pior. Acho que são traumas de um ex vira lata! Mas que nada! Apesar de alguns seres humanos serem terríveis, tem também, gente muito bacana neste mundo. Pra minha sorte este camarada era um deles!
A conversa que escutei foi à seguinte:
- Olá! Gostaria de falar com a dona de um cachorro chamado João.
Imagino que Luiza deva ter respondido lá do outro lado que era ela mesma. Foi então que ele disse:
- Tudo bem! Aqui quem fala é Luiz Heitor. Estou ligando para dizer que não precisa preocupar porque ele está bem. Correu mais de uma hora comigo e agora esta deitado aqui em frente a minha casa.
Nesta hora ela deve ter contado que eu morava no Mercado Verde e que provavelmente, eu devia ter pulado o portão mais uma vez. Meu novo amigo disse:
- Ah Claro! Ele mora no Mercado Verde? Sei onde fica! Aquela flora charmosa na Avenida Bandeirantes!
Pelo que ele falou depois, imaginei que ela devia estar se desculpando, assim meio sem jeito pela minha folga e com receio de eu fazer alguma trapalhada.
- Não... imagina! Não precisa se preocupar! Ele não me incomodou em nada.  Aliás, deu para perceber de cara que ele é um cão muito dócil. Sabe o que é? Eu tenho uma cadela Golden Ritriever e gostaria que ele passasse o fim de semana aqui conosco! Você pode buscá-lo na segunda-feira?
Eu ali na expectativa, sem saber o que ela estava dizendo. Mas como ele foi logo me colocando para dentro de casa, percebi que minha dona tinha liberado. Uhuuuuuuu! Fim de semana diferente, na casa de amigo novo era tudo que eu estava precisando para acabar com o meu tédio. Modéstia a parte, sou um cachorro bacana, mas aquele convite me surpreendeu. Nem eu sabia deste meu poder de sedução.
Fui entrando, desinibido, curtindo aquela casa gostosa e cheia de espaço para brincar. A Golden...putz...nem sei o que dizer! Chegou toda animada, simpática, balançando o rabo. Foi um fim de semana sensacional, sombra e água fresca, na maior mordomia, com um amigo super bacana e com aquela louraça. Aiaiai ... foi só alegria.
Até a próxima!
Lambidas
João, o cão social

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Mistério Desvendado

As peças do quebra cabeça foram se encaixando gradativamente. Depois de acabada a euforia gerada pela minha volta ao lar, todos começaram a querer entender o que realmente tinha acontecido. Quem era a seqüestradora? Porque ela me levou para uma clinica veterinária cara, no bairro de Lourdes sem que eu estivesse doente? Porque depois de 45 dias ela desistiu? O mistério tinha de ser desvendado!
Logo que meus amigos ficaram sabendo que eu estava na área, o assunto começou a passar de boca em boca e as pistas começaram a aparecer.
A primeira foi justamente a que levou a meu paradeiro. Uma senhora ligou na minha casa, o Mercado Verde, e informou que eu estava internado na Clinica Veterinária São Francisco. Disseram que já estava curado, podiam ir me buscar e acertar os custos relativos ao meu tratamento.
A funcionária que atendeu a chamada achou tudo aquilo muito suspeito. Como minha dona estava viajando, ela pediu para a Elaine ir até lá e constatar se era realmente eu, o João Grandão. Chegou a pensar que poderia ser um trote de um insensível, que sabia do caso do cachorro desaparecido e queria se divertir. Foi assim, que depois de 45 dias, ela apareceu no hospital de cachorros me procurando e me salvou!
Mesmo antes de a minha dona retornar de férias e começar a investigação, ninguém havia engolido esta estória. A pergunta que não queria calar: Se eu tinha uma identificação na minha coleira, com nome e dois números de telefone, porque não ligaram no dia em que eu fui internado? Afinal de contas não era um hospital do SUS e sim um particular! Que estabelecimento deste tipo acolhe um cachorro por semanas sem comunicar a um responsável e garantir o pagamento?
Quando ela retornou ao Mercado Verde a primeira coisa que fez, aliás, a segunda, pois a primeira mesmo foi me apertar todo, foi ligar para a clínica para saber quem me levou para lá. Mas a atendente desconversou e não concordou em passar esta informação. Muito estranho, não é? Pensa bem gente! Qual era o problema de passarem o nome? A única razão seria a pessoa não querer se identificar. Certamente por ter percebido a burrada que tinha feito.
Depois começaram a aparecer as testemunhas oculares, aquelas que presenciaram o rapto. O retrato falado da mulher começou a ser montado: era uma mulher, na faixa dos quarenta anos, de pele morena, cabelos escuros e corpo sarado. Várias pessoas apareceram com a mesma descrição. Ninguém deu noticias antes porque a delinqüente foi tão descarada, fez tudo tão publicamente, que acabou fazendo com que todos pensasem que era uma amiga da minha dona me levando para um passeio ou qualquer coisa do gênero.
As notícias foram rolando até que um belo dia, eis que surge no Mercado Verde uma senhora, exatamente como a que descreveram e começa a perguntar sobre mim. Estava meio constrangida, tensa e acabou dando na cara que ela era a seqüestradora. Minha dona teve certeza naquele momento que era ela! Mas optou pelo silencio pois percebeu que não passava de mais um ser humano maluco e egoísta que tinha me levado por puro capricho! Depois se arrependeu e não tinha como voltar a trás e simplesmente me devolver como se na tivesse acontecido. Não adiantaria de nada brigar com aquela meliante!  
Minha dona tem uma veia de detetive desde criança. Ela percebe coisas que a maioria das pessoas deixaria passar batido. Mas algum tempo depois, mesmo ela já tendo identificado, os fofoqueiros de plantão, supostamente amigos da morena seqüestradora, vieram até ela e confirmaram toda a estória com fatos e detalhes. Mas o que realmente importa e que voltei pra casa. Lar doce lar!
Lambidas
Big Jony

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

A mais louca aventura da minha vida

Minha biografia é cheia de estórias, estórias emocionantes, estórias divertidas, estórias surreais, e cada uma, significou aquela pitada de pimenta na minha vida. Fazendo uma analogia com os humanos, não sou aquele tipo que fica de pijama, assistindo futebol e tomando uma cerveja fim de semana sim e outro também. Definitivamente, eu gosto é de emoção!
Desde que virei cachorro de dondoca, e estabeleci uma maravilhosa relação com minha dona, até hoje, teve um único episódio que arrepio só de lembrar. E agora vou contar!
Como de costume, naquela sexta feira fui dar um passeio na Praça JK. Aquele esquema de sempre, encontrar os outros vira latas, os moradores que passeiam com seus cães pela manhã e receber um carinho da Elaine, o anjo.
Depois de curtir bastante, decidi tomar o rumo de casa. Até então, estava tudo absolutamente dentro da normalidade. Foi então que notei uma mulher caminhando na minha direção. Em um primeiro momento não dei atenção. Parecia apenas mais um dos vários pedestres que vem e vão por ali diariamente.
Quando dei por mim, aquela bonitona estava do meu lado, agachada, com uma carinha de piedade e me chamando pelo nome. Simplesmente fui ao encontro daquela bruxa. Ela veio de mansinho, fazendo um carinho gostoso na minha cabeça, eu fui relaxando e permitindo que chegasse cada vez mais perto.
Dali para entrar no carro dela foi um pulo! Achei que estava tudo certo, que era apenas uma nova amiga. Ledo engano! Sabe aquela velha estória, na qual os pais dizem aos filhos para não conversar com estranhos? Pois é, deveriam dizer o mesmo para os seus cachorros!
Já se passaram 04 anos desde que fui arrebatado por essa mulher e até hoje, sinceramente, não consegui entender porque ela me tirou da minha vida perfeita e me levou para uma clinica veterinária em outro canto da cidade. O ser humano é mesmo louco!
Fiquei sozinho e desamparado ali naquele hospital. Em um primeiro momento pensei que era mais uma das minhas aventuras. Tinha certeza absoluta que a minha dona iria entrar pela porta a qualquer momento, como sempre fez, e me salvar de mais uma das minhas presepadas.
Mas desta vez, eu juro que não tive culpa!
Dizem que o tempo dos cachorros corre diferente do tempo do bicho homem. Pra dizer a verdade, para nós caninos, este conceito de tempo não existe. Mas a partir deste dia fatídico, pelo menos para mim, começou a existir. Contei cada semana, cada dia, cada hora, cada minuto, cada segundo que passei esperando.
Toda vez que eu acordava e percebia que ainda estava ali, era como se eu estivesse vivendo um pesadelo, pesadelo por estar preso e por ter sido abandonado pela minha dona.
Eu não compreendia o que realmente estava se passando. A louca que me seqüestrou, apareceu duas vezes para me visitar e depois sumiu. A única coisa que sabia, era que na minha coleira, estava escrito o meu nome, João, e o telefone da minha mãe.
Era por isso, que eu tinha cada vez mais certeza de que ela tinha me largado para sempre naquele inferno. Afinal, os fofoqueiros sempre davam notícia da minha vida! Eu não podia dar um rolé, que alguém ligava avisando exatamente onde eu estava. Estava certo de que ela estava ciente do meu paradeiro, mas não tinha dado à mínima!
Foram 45 dias, 7 horas, 20 minutos e 32 segundos de sofrimento. Até que de repente, quando eu já havia me entregado ao pessimismo total, a Elaine, o anjo, apareceu para me buscar.
Foi só então que eu descobri o que realmente estava acontecendo! Minha dona, que neste momento estava de férias em Portugal, já tinha me dado como morto. Inacreditável! Mas não sabia nada a respeito do seqüestro.
O que me contaram, foi que ela não fazia idéia que eu estava internado. Passou semanas sofrendo, me procurando em todos os cantos, perguntando para todas as pessoas que me conheciam se tinham notícias, espalhando faixas e cartazes por toda a zona sul: procura-se João desesperadamente!
Ouvi dizer, que ela viajou inconformada com o meu sumiço, mas já começando aceitar alguma hipótese trágica. A mais plausível era atropelamento. Ela nem cogitou a possibilidade, do seu cão parceiro ter acordado e ido embora, sem aviso ou despedida. Tipo: fui ali comprar um cigarro e não voltar nunca mais. Minha dona me conhece bem! Sabe que eu não sou covarde. Isso é coisa de ser humano. Se um dia eu enfarar desta vida, o que acho difícil, direi a ela que estou partindo e não tenho dúvidas de que ela me dará a maior força.
Ligaram para ela no exterior, avisando que eu estava de volta. Vivinho da silva! Quis pegar o primeiro vôo de volta para o Brasil. Foi irmã dela, aquela que não vai muito com a minha cara, que a convenceu de que não valeria a pena ela perder o final das férias em cidades tão lindas e na agradável companhia de seus pais. Estava tudo bem!
O nosso reencontro foi inesquecível!

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Quem não se irrita vai direto para o céu!

Tenho certeza que tem algumas coisas que te irritam, certo?
Se eu que sou um cão super tranqüilo, sem 1% das paranóias dos seres humanos, tenho esta fraqueza, se você não tiver, é realmente um Santo!
Não vou me prolongar mais. Esta introdução é um pouco para limpar a minha barra, claro! Pois me comparando com o homem, acabo sempre levando vantagem. Pois sou bem menos complicado!
Bem, vamos direto ao assunto. Na avenida onde eu moro tem uma pista de Cooper que é um dos meus lugares prediletos. Quando o ambiente esta quieto, costumo deitar por ali de pernas cruzadas e fico vendo um ou outro corredor passar. Até ai tudo certo! Mas quando passa uma bicicleta pinta o problema! Fico enlouquecido de raiva e saio correndo, latindo e se possível mordendo a roda.
Não adianta a minha dona chamar minha atenção, me explicar ou me dar um corretivo. Eu me arrependo, penso em não fazer nunca mais e tudo vai abaixo quando aparece a próxima bike.
Foi em uma dessas vaciladas que um sujeito muito estressado parou, desceu e veio quente tirar satisfação, satisfação com a minha mãe, certamente! Afinal, nenhum maluco pede explicações a um cão.
Como a minha adorável protetora sabe que eu não sou flor que se cheire e conhece bem estas minhas disparadas atrás de qualquer ciclista que passa pela pista, recebeu o rapaz de maneira amável e realmente disposta a levar um espalho calada.
O problema é que o camarada partiu para o ataque e acabou perdendo a razão. Ela tentou argumentar de todas as formas, mas naquele dia, parecia que aquele homem tinha saído de casa com a idéia fixa de brigar com o primeiro mortal que cruzasse o seu caminho. Acabei sendo o escolhido!
A briga foi esquentando e o sujeitinho começou a crescer para cima dela. A agressão verbal já não estava resolvendo o problema, ele parecia querer dar era porrada mesmo! Imagine eu vendo isso! Uma verdadeira covardia! Não sabia o que era pior, avançar no cara e jogar de vez a sujeira no ventilador ou ficar na minha. Foi terrível!
De repente, do meio do nada, quando a situação já estava começando a ficar fora de controle, aparece o salvador! Era o pai dela chegando que nem um touro feroz, tirando ela da frente do cara e peitando o camarada de homem pra homem. Não deu outra, o covarde abaixou a bola em dois tempos, subiu naquela magrela maldita e foi embora pedalando.
Eu nem sei dizer, ou melhor, expressar o tanto que fiquei agradecido! Não poderia imaginar aquele anjo nocauteado por minha culpa.
Eu estava contente por tudo ter acabado bem. Mas também por meu “avô” ter tomado o meu partido. Mas depois, ouvi dizer, que quando ele descobriu que a briga era por minha causa, ele disse: “se eu soubesse que a razão daquele troglodita partir para cima de você era mais uma trapalhada do João, acho que tinha te deixado apanhar!” Mas tudo bem, nem tudo é perfeito!

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Quem sou aos olhos do ser humano - Parte II

Não posso dizer que sou uma unanimidade, longe disso! Mas é incrível como não passo despercebido, ou as pessoas me amam ou me odeiam.

Pra falar a verdade, não estou nem aí para o julgamento dos humanos ao meu respeito. Acho curioso alguém não gostar de um vira lata despretencioso e simpático como eu, mas entender mesmo, não entendo! Cachorro não tem essa coisa de ficar preocupando com a vida dos outros. Nós gostamos de todos e só prestamos atenção em quem realmente importa.  Fora que nossa memória é curtíssima! Aliás, o dia que o bicho homem perceber tudo isso, vai ser muito mais leve e feliz.

Mesmo eu sendo assim, desligadão, acabei tendo de aceitar a opinião de umas poucas pessoas, não por me importar com elas, mas por serem importantes na vida da minha dona que eu amo de paixão.
Ela tem uma irmã que é fogo, fogo porque o que ela diz a meu respeito é a mais pura verdade, e acaba fazendo com que a minha dona perceba coisas que provavelmente não perceberia sozinha.
Quando esta mulher insuportável aparece no Mercado Verde já chega reclamando que o escritório esta bagunçado por minha causa, que esta cheirando a murrinha de cachorro e da uns ataques ridículos quando eu fico cheirando os clientes...afff. Ninguém merece!
Pior de tudo é que a minha consciência pesaria demais se eu dissesse que “a mala” não está coberta de razão, pois jamais quero prejudicar a minha proprietária, e afastar os clientes seria uma péssima idéia! Pra complicar ainda mais a minha vida, a irmã maldita adora de cães. Antes não gostasse para eu poder acusá-la de preconceituosa!
C’est la vie!!!
João

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Quem sou aos olhos do ser humano- Parte I

Nem tudo é perfeito, nem mesmo na vida canina!
Confesso! Ás vezes dou uma vacilada, perco as estribeiras e parto para cima de um ou outro cachorro de madame que passa em frente a minha casa, o Mercado Verde.
Não pensem que tenho preconceito em relação a outras raças, mas é que os cães, assim como as crianças, são muito influenciados pelas suas mães. Até um vira lata safo como eu poderia se transformar em um completo “Mané” nas mãos de um proprietário “Mané”.
Na maioria das vezes, a minha postura é só para demonstrar quem é o rei do pedaço e marcar meu território. Mas nas situações em que apelei geral e perdi completamente o controle, no máximo umas duas ou três vezes, o marido da minha dona, o meu padrasto, apareceu por lá. Convenhamos, é muita falta de sorte!
Daí vocês já podem imaginar o resto da estória. O cara me acha um cão fora de controle!
Até entendo a posição dele, afinal fica com receio que eu prejudique a reputação da esposa no ambiente de trabalho. Ela já tentou argumentar que foi uma infeliz coincidência, que eu não sou tão nervosinho quanto posso aparentar, mas nada feito, ele é irredutível!
Infelizmente, mais uma vez, terei de concordar com ele. Pois além das evidências, tem mais um ponto contra mim. Minha dona é mais permissiva do que a média quando o assunto é cachorro. Dizem as más línguas que ela é até meio sem noção!
Pra dizer a verdade ela sabe muito bem o que quer, prefere os animais aos seres humanos. Mais do que compreensível! Afinal de contas, todos os cães que eu já conheci nesta minha vida, independente da raça, podiam até ter defeitos, mas eram impreterivelmente leais aos seus donos e só estavam com eles por uma única razão: amor.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Adaptação à vida de cachorro de madame

Pronto! Agora já sabem por alto como a minha vida mudou da água para o vinho. Fui de cachorro de rua para uma categoria muito melhor do que cachorro de madame, pois sou tratado com todos os mimos e carinhos que tenho direito e tudo isto com toda a liberdade.
Não sei como nomear este status, mas considero que eu e minha dona temos um relacionamento liberal.
Adoro sair por aí sem rumo, completamente sem destino e sem hora marcada pra voltar pra casa.
Atualmente até que sou mais tranqüilo e caseiro, mas confesso que no início eu acabava dando umas fugidas pela madrugada à dentro. Aiaiai! Nem gosto de pensar quantas vezes um sujeito que eu nem conhecia, lia o telefone dela na minha coleira e ligava tarde da noite pra dizer que eu estava no bar tal, na rua tal. Putz! Era um transtorno!
Uma pessoa normal, que gosta de cachorros, poderia até se preocupar com estes telefonemas, mas não sairia da cama no meio da noite ou de uma festa pra rodar a cidade atrás de um cão. Diga-se de passagem, um vira lata.
Quando finalmente, depois de rodar um bairro inteiro, me encontrava na rua perambulando, estava escrito em seus olhos que estava uma fera comigo! Mas não adiantava ninguém falar nada contra mim, pois para esta adorável mulher, é humanamente impossível deitar a cabeça no travesseiro e dormir sabendo que eu estou desamparado. Imagino que era exatamente assim que ela se sentia, ou melhor, sente, pois ainda não aposentei as minhas chuteiras. Diminui o ritmo, mas às vezes, ainda dou as minhas escapadas noturnas.
Labidelas
João Grandão

domingo, 31 de outubro de 2010

Da água pro vinho - Parte III


Na época em que encontrei minha protetora na Praça JK, eu nem imaginava o que estava por vir. Já estava tudo tão bom, que eu achava que estava com a vida ganha!
Foi em uma segunda-feira de verão ensolarada. Sai para a minha caminhada de sempre e passei pela milésima vez em frente a uma flora super charmosa que tem na Avenida Bandeirantes, o Mercado Verde.
Naquele dia, não faço a mínima idéia porque resolvi entrar naquele lugar. Tudo bem que é super aconchegante e muitas pessoas têm esta vontade, mas eu, sinceramente, já tinha passado por ali mil vezes e nunca tinha sentido isso. Além do mais, sou um cão e não um ser humano cheio de desejos!
Fui entrando de mansinho e não vi ninguém. Dei de cara com um escritório vazio e ali mesmo resolvi me deitar e dar uma relaxadinha.
De repente, entra uma mulher e me pega no fraga! Pensei logo que ia ser escorraçado dali debaixo de gritos, gritos que escutei a vida toda: some daqui seu vira lata pulguento! Passa cachorro folgado! Se eu continuar falando, não acabo mais! Pois o meu repertório de xingamentos contra cachorros encheria muitas páginas.
Mas ela me surpreendeu! Veio de mansinho, foi chegando cada vez mais perto e eu, que não gosto muito de contato físico me deixei enfeitiçar por ela.


sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Da água pro vinho- Parte II

Enquanto eu ando pelas ruas, geralmente fico pensando na vida.
E sempre chego à mesma conclusão: caraca como eu sou um cara sortudo!
Descobri uma pracinha muito maneira e acabei escolhendo este cantinho pra passar a maior parte do meu tempo.
Apesar de não entender absolutamente nada de coordenadas geográficas, cachorro você sabe como é? Um verdadeiro GPS de quatro patas! E eu acabava voltando sempre para o mesmo lugar.
Durante o dia eu passeava horas a fio pela cidade, mas a noite eu sempre estava na Praça JK.
Não sei exatamente por que eu fazia isto todos os dias. Essas coisas a gente não explica! Mas a vibração daquele lugar tinha alguma coisa que me fazia sentir muito bem.
Foi nesse momento que a minha vida começou a mudar, quando conheci uma moça chamada Elaine.
Não sei por qual razão, pois ela nem me conhecia e começou a me dar comida e carinho. Pior que não era só eu o felizardo, ela cuidava de todos os cães que eram atraídos para aquela bendita praça.
Eu não conseguia entender o que estava acontecendo. Minha vida inteira eu passei fome, comia carcaça de bicho morto quando encontrava. Todos os humanos me olhavam ou com cara de raiva ou de pena, não sei qual é pior! Fora quando eu não era espancado. Eu odiava a vida!
De repente eu conheço este primeiro anjo, pois depois vieram muitos outros.
Ela estava sempre lá na praça e me dava uma coisa deliciosa para comer, que depois eu vim descobrir que chamava ração.
A cada dia que passava eu ia ficando mais forte, engordei um bocado e meu pelo foi ficando lindo.
Não posso dizer que seu um cara, ou melhor, um cão bonito, mas tenho lá o meu charme!
Acabei adotando a zona sul de Belo Horizonte como a minha área e comecei a curtir a vida de cachorro.

Da água pro vinho- Parte I




Minha dona diz que a minha vida daria um livro e olha que ela só me conhece há alguns anos. Antes disso, vivi muito tempo vagueando sem rumo pelas ruas e só eu sei o que presenciei nesta cidade. Algumas pessoas não se preocupam nem com o outro ser humano imaginem com um vira lata como eu!
Eu sou um cão com coração bom, mas meio mal encarado. Tudo bem vai! Eu confesso! Algumas vezes meto os pés pelas mãos e parto pra cima de uns cachorrinhos de madame que passam na frente da minha casa abanando o rabo pra minha mulher ou pra minha dona. Mas esta estória eu conto depois. Primeiro preciso me apresentar.
Eu vivo em estado de graça e posso afirmar que se morrer agora morrerei feliz e realizado.
Se eu pudesse escolher a vida que eu quisesse certamente seria a minha.
Tenho uma dona que me trata como se eu fosse um príncipe, passo o dia vadiando pelas ruas e quando sinto fome, saudades de casa ou vontade de relaxar, volto pra casa e ela esta sempre me esperando com a melhor cara do mundo.
Ela trata muito bem os animais e já tirou da vida bandida da rua muitos como eu, mas a sorte de ser o escolhido dela foi só minha, da minha mulher, Zezin manqueba, da Menina e de um cão meio fedorento chamado Zeca.
Todos estes cachorros são meus amigos e me fazem companhia, mas de quem eu faço questão mesmo e da minha dona e da minha mulher, a Maria.
Já tomei muita pancada, literalmente, e na maioria das vezes eu nem sabia por que estava apanhando. De repente aparecia um sujeito na minha frente com um porrete, gritando e me descia o cacete. Tudo bem que eu não tive a sorte de nascer em uma família, mas não é por isso que alguém pode me agredir.
Por hoje é só...amanhã eu conto mais.
Lambidas
João