quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Um novo amigo e a louraça

Minha dona é uma grande companheira. Depois do expediente, sempre saímos para dar uma corrida. Este é o nosso momento de relaxar ao fim de mais um dia estressante e acaba servindo também, de tabela, para eu gastar um pouco da minha energia. Sem essa válvula de escape, definitivamente, não consigo ficar sossegado!
Sou um cão hiper-ativo. Como já contei em outros posts, tenho fogo no rabo, sou boêmio e não resisto sair para meus passeios noturnos.
Sempre que ela começa a se preparar para ir embora, desligar o notebook, arrumar a bolsa e finalmente apagar as luzes do escritório, já me animo todo. Sei que esta é a hora da nossa voltinha. O percurso é bem variado. Minha dona é como eu: não gosta de repetição e adora um atalho. Tudo depende do astral e da disposição dela. Quem vê aquela baixinha não imagina como ela corre. Confesso, que ás vezes ela me quebra!
Acabei ficando meio vidrado nesse lance de corrida. Nos dias em que ela não vai, fico a noite toda entediado ou acabo dando uma das minhas fugidas para a night. Mas teve uma vez, que eu estava tão a fim de sair correndo, que não resisti. Assim que ela virou as costas, pulei o portão e sai em disparada como se fosse a minha ultima vez!
Sai na inércia seguindo por um dos trajetos que eu já havia feito com a Luiza. Quando estava subindo a Avenida das Agulhas Negras, lugar que a gente sempre passa, encontrei um camarada que estava em um ritmo bem legal. Não deu outra! Resolvi acompanhar.
A princípio ele tentou ir mais rápido, mas mostrei que sou bom na corrida. Eu dava aquela disparada, tipo pra esnobar, e esperava-o lá na frente. E assim, ficamos por volta de uma hora, até que ele parou em frente a uma casa, tocou o interfone e entrou. Não entendi muito bem, mas como eu estava cansado, resolvi relaxar e me estiquei na calçada. Passado algum tempo, o rapaz reapareceu com um telefone nas mãos, leu a placa que tenho na minha coleira fez uma ligação.
Já pensei logo: Estrepei-me! Ele vai falar cobras e lagartos para a minha dona! Nessas horas, mesmo sem ter feito nada de errado, eu sempre penso no pior. Acho que são traumas de um ex vira lata! Mas que nada! Apesar de alguns seres humanos serem terríveis, tem também, gente muito bacana neste mundo. Pra minha sorte este camarada era um deles!
A conversa que escutei foi à seguinte:
- Olá! Gostaria de falar com a dona de um cachorro chamado João.
Imagino que Luiza deva ter respondido lá do outro lado que era ela mesma. Foi então que ele disse:
- Tudo bem! Aqui quem fala é Luiz Heitor. Estou ligando para dizer que não precisa preocupar porque ele está bem. Correu mais de uma hora comigo e agora esta deitado aqui em frente a minha casa.
Nesta hora ela deve ter contado que eu morava no Mercado Verde e que provavelmente, eu devia ter pulado o portão mais uma vez. Meu novo amigo disse:
- Ah Claro! Ele mora no Mercado Verde? Sei onde fica! Aquela flora charmosa na Avenida Bandeirantes!
Pelo que ele falou depois, imaginei que ela devia estar se desculpando, assim meio sem jeito pela minha folga e com receio de eu fazer alguma trapalhada.
- Não... imagina! Não precisa se preocupar! Ele não me incomodou em nada.  Aliás, deu para perceber de cara que ele é um cão muito dócil. Sabe o que é? Eu tenho uma cadela Golden Ritriever e gostaria que ele passasse o fim de semana aqui conosco! Você pode buscá-lo na segunda-feira?
Eu ali na expectativa, sem saber o que ela estava dizendo. Mas como ele foi logo me colocando para dentro de casa, percebi que minha dona tinha liberado. Uhuuuuuuu! Fim de semana diferente, na casa de amigo novo era tudo que eu estava precisando para acabar com o meu tédio. Modéstia a parte, sou um cachorro bacana, mas aquele convite me surpreendeu. Nem eu sabia deste meu poder de sedução.
Fui entrando, desinibido, curtindo aquela casa gostosa e cheia de espaço para brincar. A Golden...putz...nem sei o que dizer! Chegou toda animada, simpática, balançando o rabo. Foi um fim de semana sensacional, sombra e água fresca, na maior mordomia, com um amigo super bacana e com aquela louraça. Aiaiai ... foi só alegria.
Até a próxima!
Lambidas
João, o cão social

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Mistério Desvendado

As peças do quebra cabeça foram se encaixando gradativamente. Depois de acabada a euforia gerada pela minha volta ao lar, todos começaram a querer entender o que realmente tinha acontecido. Quem era a seqüestradora? Porque ela me levou para uma clinica veterinária cara, no bairro de Lourdes sem que eu estivesse doente? Porque depois de 45 dias ela desistiu? O mistério tinha de ser desvendado!
Logo que meus amigos ficaram sabendo que eu estava na área, o assunto começou a passar de boca em boca e as pistas começaram a aparecer.
A primeira foi justamente a que levou a meu paradeiro. Uma senhora ligou na minha casa, o Mercado Verde, e informou que eu estava internado na Clinica Veterinária São Francisco. Disseram que já estava curado, podiam ir me buscar e acertar os custos relativos ao meu tratamento.
A funcionária que atendeu a chamada achou tudo aquilo muito suspeito. Como minha dona estava viajando, ela pediu para a Elaine ir até lá e constatar se era realmente eu, o João Grandão. Chegou a pensar que poderia ser um trote de um insensível, que sabia do caso do cachorro desaparecido e queria se divertir. Foi assim, que depois de 45 dias, ela apareceu no hospital de cachorros me procurando e me salvou!
Mesmo antes de a minha dona retornar de férias e começar a investigação, ninguém havia engolido esta estória. A pergunta que não queria calar: Se eu tinha uma identificação na minha coleira, com nome e dois números de telefone, porque não ligaram no dia em que eu fui internado? Afinal de contas não era um hospital do SUS e sim um particular! Que estabelecimento deste tipo acolhe um cachorro por semanas sem comunicar a um responsável e garantir o pagamento?
Quando ela retornou ao Mercado Verde a primeira coisa que fez, aliás, a segunda, pois a primeira mesmo foi me apertar todo, foi ligar para a clínica para saber quem me levou para lá. Mas a atendente desconversou e não concordou em passar esta informação. Muito estranho, não é? Pensa bem gente! Qual era o problema de passarem o nome? A única razão seria a pessoa não querer se identificar. Certamente por ter percebido a burrada que tinha feito.
Depois começaram a aparecer as testemunhas oculares, aquelas que presenciaram o rapto. O retrato falado da mulher começou a ser montado: era uma mulher, na faixa dos quarenta anos, de pele morena, cabelos escuros e corpo sarado. Várias pessoas apareceram com a mesma descrição. Ninguém deu noticias antes porque a delinqüente foi tão descarada, fez tudo tão publicamente, que acabou fazendo com que todos pensasem que era uma amiga da minha dona me levando para um passeio ou qualquer coisa do gênero.
As notícias foram rolando até que um belo dia, eis que surge no Mercado Verde uma senhora, exatamente como a que descreveram e começa a perguntar sobre mim. Estava meio constrangida, tensa e acabou dando na cara que ela era a seqüestradora. Minha dona teve certeza naquele momento que era ela! Mas optou pelo silencio pois percebeu que não passava de mais um ser humano maluco e egoísta que tinha me levado por puro capricho! Depois se arrependeu e não tinha como voltar a trás e simplesmente me devolver como se na tivesse acontecido. Não adiantaria de nada brigar com aquela meliante!  
Minha dona tem uma veia de detetive desde criança. Ela percebe coisas que a maioria das pessoas deixaria passar batido. Mas algum tempo depois, mesmo ela já tendo identificado, os fofoqueiros de plantão, supostamente amigos da morena seqüestradora, vieram até ela e confirmaram toda a estória com fatos e detalhes. Mas o que realmente importa e que voltei pra casa. Lar doce lar!
Lambidas
Big Jony

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

A mais louca aventura da minha vida

Minha biografia é cheia de estórias, estórias emocionantes, estórias divertidas, estórias surreais, e cada uma, significou aquela pitada de pimenta na minha vida. Fazendo uma analogia com os humanos, não sou aquele tipo que fica de pijama, assistindo futebol e tomando uma cerveja fim de semana sim e outro também. Definitivamente, eu gosto é de emoção!
Desde que virei cachorro de dondoca, e estabeleci uma maravilhosa relação com minha dona, até hoje, teve um único episódio que arrepio só de lembrar. E agora vou contar!
Como de costume, naquela sexta feira fui dar um passeio na Praça JK. Aquele esquema de sempre, encontrar os outros vira latas, os moradores que passeiam com seus cães pela manhã e receber um carinho da Elaine, o anjo.
Depois de curtir bastante, decidi tomar o rumo de casa. Até então, estava tudo absolutamente dentro da normalidade. Foi então que notei uma mulher caminhando na minha direção. Em um primeiro momento não dei atenção. Parecia apenas mais um dos vários pedestres que vem e vão por ali diariamente.
Quando dei por mim, aquela bonitona estava do meu lado, agachada, com uma carinha de piedade e me chamando pelo nome. Simplesmente fui ao encontro daquela bruxa. Ela veio de mansinho, fazendo um carinho gostoso na minha cabeça, eu fui relaxando e permitindo que chegasse cada vez mais perto.
Dali para entrar no carro dela foi um pulo! Achei que estava tudo certo, que era apenas uma nova amiga. Ledo engano! Sabe aquela velha estória, na qual os pais dizem aos filhos para não conversar com estranhos? Pois é, deveriam dizer o mesmo para os seus cachorros!
Já se passaram 04 anos desde que fui arrebatado por essa mulher e até hoje, sinceramente, não consegui entender porque ela me tirou da minha vida perfeita e me levou para uma clinica veterinária em outro canto da cidade. O ser humano é mesmo louco!
Fiquei sozinho e desamparado ali naquele hospital. Em um primeiro momento pensei que era mais uma das minhas aventuras. Tinha certeza absoluta que a minha dona iria entrar pela porta a qualquer momento, como sempre fez, e me salvar de mais uma das minhas presepadas.
Mas desta vez, eu juro que não tive culpa!
Dizem que o tempo dos cachorros corre diferente do tempo do bicho homem. Pra dizer a verdade, para nós caninos, este conceito de tempo não existe. Mas a partir deste dia fatídico, pelo menos para mim, começou a existir. Contei cada semana, cada dia, cada hora, cada minuto, cada segundo que passei esperando.
Toda vez que eu acordava e percebia que ainda estava ali, era como se eu estivesse vivendo um pesadelo, pesadelo por estar preso e por ter sido abandonado pela minha dona.
Eu não compreendia o que realmente estava se passando. A louca que me seqüestrou, apareceu duas vezes para me visitar e depois sumiu. A única coisa que sabia, era que na minha coleira, estava escrito o meu nome, João, e o telefone da minha mãe.
Era por isso, que eu tinha cada vez mais certeza de que ela tinha me largado para sempre naquele inferno. Afinal, os fofoqueiros sempre davam notícia da minha vida! Eu não podia dar um rolé, que alguém ligava avisando exatamente onde eu estava. Estava certo de que ela estava ciente do meu paradeiro, mas não tinha dado à mínima!
Foram 45 dias, 7 horas, 20 minutos e 32 segundos de sofrimento. Até que de repente, quando eu já havia me entregado ao pessimismo total, a Elaine, o anjo, apareceu para me buscar.
Foi só então que eu descobri o que realmente estava acontecendo! Minha dona, que neste momento estava de férias em Portugal, já tinha me dado como morto. Inacreditável! Mas não sabia nada a respeito do seqüestro.
O que me contaram, foi que ela não fazia idéia que eu estava internado. Passou semanas sofrendo, me procurando em todos os cantos, perguntando para todas as pessoas que me conheciam se tinham notícias, espalhando faixas e cartazes por toda a zona sul: procura-se João desesperadamente!
Ouvi dizer, que ela viajou inconformada com o meu sumiço, mas já começando aceitar alguma hipótese trágica. A mais plausível era atropelamento. Ela nem cogitou a possibilidade, do seu cão parceiro ter acordado e ido embora, sem aviso ou despedida. Tipo: fui ali comprar um cigarro e não voltar nunca mais. Minha dona me conhece bem! Sabe que eu não sou covarde. Isso é coisa de ser humano. Se um dia eu enfarar desta vida, o que acho difícil, direi a ela que estou partindo e não tenho dúvidas de que ela me dará a maior força.
Ligaram para ela no exterior, avisando que eu estava de volta. Vivinho da silva! Quis pegar o primeiro vôo de volta para o Brasil. Foi irmã dela, aquela que não vai muito com a minha cara, que a convenceu de que não valeria a pena ela perder o final das férias em cidades tão lindas e na agradável companhia de seus pais. Estava tudo bem!
O nosso reencontro foi inesquecível!