domingo, 31 de outubro de 2010

Da água pro vinho - Parte III


Na época em que encontrei minha protetora na Praça JK, eu nem imaginava o que estava por vir. Já estava tudo tão bom, que eu achava que estava com a vida ganha!
Foi em uma segunda-feira de verão ensolarada. Sai para a minha caminhada de sempre e passei pela milésima vez em frente a uma flora super charmosa que tem na Avenida Bandeirantes, o Mercado Verde.
Naquele dia, não faço a mínima idéia porque resolvi entrar naquele lugar. Tudo bem que é super aconchegante e muitas pessoas têm esta vontade, mas eu, sinceramente, já tinha passado por ali mil vezes e nunca tinha sentido isso. Além do mais, sou um cão e não um ser humano cheio de desejos!
Fui entrando de mansinho e não vi ninguém. Dei de cara com um escritório vazio e ali mesmo resolvi me deitar e dar uma relaxadinha.
De repente, entra uma mulher e me pega no fraga! Pensei logo que ia ser escorraçado dali debaixo de gritos, gritos que escutei a vida toda: some daqui seu vira lata pulguento! Passa cachorro folgado! Se eu continuar falando, não acabo mais! Pois o meu repertório de xingamentos contra cachorros encheria muitas páginas.
Mas ela me surpreendeu! Veio de mansinho, foi chegando cada vez mais perto e eu, que não gosto muito de contato físico me deixei enfeitiçar por ela.


sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Da água pro vinho- Parte II

Enquanto eu ando pelas ruas, geralmente fico pensando na vida.
E sempre chego à mesma conclusão: caraca como eu sou um cara sortudo!
Descobri uma pracinha muito maneira e acabei escolhendo este cantinho pra passar a maior parte do meu tempo.
Apesar de não entender absolutamente nada de coordenadas geográficas, cachorro você sabe como é? Um verdadeiro GPS de quatro patas! E eu acabava voltando sempre para o mesmo lugar.
Durante o dia eu passeava horas a fio pela cidade, mas a noite eu sempre estava na Praça JK.
Não sei exatamente por que eu fazia isto todos os dias. Essas coisas a gente não explica! Mas a vibração daquele lugar tinha alguma coisa que me fazia sentir muito bem.
Foi nesse momento que a minha vida começou a mudar, quando conheci uma moça chamada Elaine.
Não sei por qual razão, pois ela nem me conhecia e começou a me dar comida e carinho. Pior que não era só eu o felizardo, ela cuidava de todos os cães que eram atraídos para aquela bendita praça.
Eu não conseguia entender o que estava acontecendo. Minha vida inteira eu passei fome, comia carcaça de bicho morto quando encontrava. Todos os humanos me olhavam ou com cara de raiva ou de pena, não sei qual é pior! Fora quando eu não era espancado. Eu odiava a vida!
De repente eu conheço este primeiro anjo, pois depois vieram muitos outros.
Ela estava sempre lá na praça e me dava uma coisa deliciosa para comer, que depois eu vim descobrir que chamava ração.
A cada dia que passava eu ia ficando mais forte, engordei um bocado e meu pelo foi ficando lindo.
Não posso dizer que seu um cara, ou melhor, um cão bonito, mas tenho lá o meu charme!
Acabei adotando a zona sul de Belo Horizonte como a minha área e comecei a curtir a vida de cachorro.

Da água pro vinho- Parte I




Minha dona diz que a minha vida daria um livro e olha que ela só me conhece há alguns anos. Antes disso, vivi muito tempo vagueando sem rumo pelas ruas e só eu sei o que presenciei nesta cidade. Algumas pessoas não se preocupam nem com o outro ser humano imaginem com um vira lata como eu!
Eu sou um cão com coração bom, mas meio mal encarado. Tudo bem vai! Eu confesso! Algumas vezes meto os pés pelas mãos e parto pra cima de uns cachorrinhos de madame que passam na frente da minha casa abanando o rabo pra minha mulher ou pra minha dona. Mas esta estória eu conto depois. Primeiro preciso me apresentar.
Eu vivo em estado de graça e posso afirmar que se morrer agora morrerei feliz e realizado.
Se eu pudesse escolher a vida que eu quisesse certamente seria a minha.
Tenho uma dona que me trata como se eu fosse um príncipe, passo o dia vadiando pelas ruas e quando sinto fome, saudades de casa ou vontade de relaxar, volto pra casa e ela esta sempre me esperando com a melhor cara do mundo.
Ela trata muito bem os animais e já tirou da vida bandida da rua muitos como eu, mas a sorte de ser o escolhido dela foi só minha, da minha mulher, Zezin manqueba, da Menina e de um cão meio fedorento chamado Zeca.
Todos estes cachorros são meus amigos e me fazem companhia, mas de quem eu faço questão mesmo e da minha dona e da minha mulher, a Maria.
Já tomei muita pancada, literalmente, e na maioria das vezes eu nem sabia por que estava apanhando. De repente aparecia um sujeito na minha frente com um porrete, gritando e me descia o cacete. Tudo bem que eu não tive a sorte de nascer em uma família, mas não é por isso que alguém pode me agredir.
Por hoje é só...amanhã eu conto mais.
Lambidas
João